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ver melhor, ajudado por Chagall. os grandes nomes da
Profecia.
VII
Uma vez mais. corro, sem me preocupar com a ordem
das páginas, aos rostos dominantes. Quem resistirá a curio-
sidade de saber logo como o pintor vê Job, Daniel, Jonas?
A primeira página sobre Job é a página de sua miséria.
Mas em sua miséria, ao menos, ele está sozinho. Ao con-
templar o homem em sua simples miséria, parece que minha
compaixão adormece. Aceito o infortúnio.
Quão mais dolorosa para mim é a página seguinte na
qual Satã vem tentar o homem infeliz. Este Satã alegre,
este Satã um pouco barrigudo, este Satã de rosto moderno,
por um instante me faz rir. E, de repente, censuro-me por
ter rido. Nesta página o pintor dialetizou a ironia. Será ela
um jogo, será uma crueldade? Satã é bastante inteligente
para pretender tentar um Profeta?
Mas Job é inabalável. Permanece pensativo, tranqüilo
em sua miséria. Quando reza, é um mestre da oração suave,
sem veemência. 0 pintor que ilustra o Livro de Job faz-nos
viver em profundidade os instantes da resignação delicada.
A BÍBLIA DE CHAGALL 17
Em contraste com as páginas que ilustram, com Job,
a não-violência, encontramos o negro rosto do Eclesiasta.
A página é muito cbagalliana. 0 pássaro de Chagall é aqui
um astro igual ao crescente da Lua. Não traz ele as tábuas
da Lei? 0 perfil do profeta nos remete à tristeza de suas
palavras legendárias.
VIII
Viramos a página para voltar a viver, escutando o
Cântico dos Cânticos. Chagall. aqui, está em plena vida,
pois mostra-nos de novo um mundo ornado por mulheres.
Estas pranchas são, para mim, o mundo feminino em ex-
pansão. O destino do mundo é criar mulheres. Uma mulher
não nasce, por exemplo, das harmonias do vento, nos ramos
de uma árvore? Uma mulher não repousa, toda branca e
gorda, sobre uma grande folha de palmeira ? Parece que
instantes do Paraíso acabam de soar. A esse sinal de felici-
dade reencontrada, Chagall desenha belos corpos enlaçados,
cabeças coroadas que beijam belas moças; belas formas bran-
cas vêm clarear o céu da noite, viver no êxtase de um vôo
com os pássaros da felicidade.
IX
Ao despertar das alegrias exuberantes que experimen-
tou ao ilustrar o Cântico dos Cânticos, Chagall vive o pesa-
delo de Baltazar.
0 festim acabou. Bebeu-se nos vasos sagrados roubados
"da casa de Deus em Jerusalém". Mas, quando o sacrilégio
está em seu auge, uma mão sem braço escreve sobre a mu-
ralha : Mené, Mené, Thekel Upharsin. Daniel explicará o
prodígio. Mas é o instante de pavor que Chagall quer ex-
pressar. Coloca o pavor nos próprios dedos do Rei da Babi-
lônia. O tremor está nos ossos de Baltazar. Não diz o Livro
que os joelhos do Rei "batiam um contra o outro"? Todo
o rosto de Baltazar traz o sinal de um cataclismo psicoló-
gico. Um rei do mundo é então derrubado por um presságio.
As palavras fatídicas trabalham, para além do coração do
homem, todas as forças do universo. As palavras escritas
18 O DIREITO DE SONHAR
na muralha transtornam a história. Em duas páginas, Cha-
gall nos relembra essa revolução no destino de Israel.
X
Mas eu sonho mal esses infortúnios de rei. Em minha
aventura de leitor, fico impaciente por chegar aos abrigos
de meus grandes devaneios. Quantas vezes, desde que tenho
o livro de Chagall em meu quarto, nesta pequena baleia
que é meu quarto com flanços cobertos de livros, não retor-
nei para alimentar meu devaneio com as imagens de Jonas!
Chagall não usa de astúcia com a lenda. O peixe aí
aparece, às vezes menor do que o Profeta, às vezes já dige-
rindo o náufrago! Assim o querem os devaneios que brin-
cam até à inverossimühança com a dialética do continente
e do conteúdo. 0 mar também não é, por si só, um peixe
gigantesco? Jonas está verdadeiramente no seio das águas.
É o mundo das águas que, desde o primeiro naufrágio, en-
goliu o Profeta: "As águas tinham-me cercado até à alma;
o abismo tinha-me envolvido de todos os lados; os caniços
tinham-me rodeado a cabeça" (Livro de Jonas, II, 6). Mas,
do fundo desse sepulcro marinho, do fundo desse túmulo
vivo que é o peixe engolidor, Jonas reza ao Senhor. 0 ven-
tre da baleia é ura oratório.
Chega então o momento em que Jonas deixa o mundo
das escamas para ser despejado na praia de areia. Jonas
reencontra os homens. Seu destino de Profeta começa e
Chagall no-lo mostra correndo em direção a Nínive, para
levar até lá a palavra de Deus.
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